O que ganhamos com tanta urgência?


Ah, leitor amigo, vivemos em tempos curiosos, repletos de contrastes, que mais parecem saídos de um de meus romances. 

O mundo moderno, este em que agora nos encontramos, move-se com uma pressa desenfreada, como se cada segundo perdido fosse uma gota de ouro que escapa pelos dedos. 

Permitir-me divagar um pouco sobre este fenômeno chamado inteligência artificial, o grande assunto da vez, que, com seus algoritmos e cálculos invisíveis, já ousa competir com o talento humano. Vamos, pois, fazer uma reflexão, que é sempre um bálsamo para as dores do espírito.

A inteligência artificial, dizem, pode fazer de tudo. Escrever, pintar, compor músicas, dar conselhos, e até, vejam só, sugerir amores e destinos. Lembro-me dos tempos em que, jovem, observava o vai e vem da vida com certa curiosidade irônica, e hoje me pergunto o que eu teria pensado ao ver uma máquina, destituída de alma, de coração, de paixões, tentando assumir as funções da natureza humana. Já não basta ao homem ser governado por suas paixões e falhas, agora surge a ciência a querer moldar o gênio em meros cálculos?

Não me entendam mal, eu, que sempre admirei o progresso, não sou inimigo da modernidade. A máquina a vapor, o telégrafo, e agora este prodígio da inteligência artificial, todos são filhos da engenhosidade humana, e como tais merecem seu reconhecimento. 

Mas, permita-me o ceticismo, o homem parece cada vez mais inclinado a terceirizar suas responsabilidades e, o que é pior, suas emoções. O que será da literatura, da arte, da poesia, se delegarmos à inteligência artificial a missão de criar em nosso nome? Não é o sofrimento, o gozo, a esperança frustrada e a ironia das pequenas coisas que fazem da arte um reflexo do próprio humano?

Vejamos a situação de hoje, caro leitor: jovens apressados, grudados às telas, em busca de respostas fáceis, que não exigem reflexão ou dúvida. Sim, a dúvida, esse motor da sabedoria, parece eclipsada pela eficiência. 

Antigamente, o livro era uma companhia fiel; hoje, um piscar de olhos é suficiente para que o conteúdo se esvazie de qualquer profundidade. A inteligência artificial alimenta essa sede de rapidez, com respostas prontas, diretas, mas... onde está o prazer da incerteza? Onde está o encanto da interrogação?

Viver, creio eu, é mais do que resolver equações. As maiores questões da existência jamais serão resolvidas por um amontoado de códigos e bits. O mistério da vida, a pergunta sobre quem somos e o que desejamos, essas, felizmente, continuarão fora do alcance das máquinas. E que bom! Pois é nesse desconhecido que reside a beleza da nossa condição humana.

Digo, pois, aos leitores deste tempo moderno: a inteligência artificial pode ser uma ferramenta útil, sem dúvida, mas que ela nunca ofusque o brilho da curiosidade, do sentir, do questionar. Sejamos, ainda, senhores de nossas emoções e pensamentos, e não meros autômatos guiados por conveniências.

E, assim, concluo esta reflexão com um brinde silencioso à literatura, à dúvida, e a tudo aquilo que nos faz genuinamente humanos.

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